domingo, 9 de agosto de 2009

ENTRE POBRES E RICOS


ensaio sobre a convivência de classes

Mesmo sabendo que em outros locais (estados) o show seria mais caro, resolvi comprar o ingresso (carteirinha na mão, e cambitas pra aguentar o filão). A vontade de ir falou mais alto do que a possibilidade de acontecer alguma "eventualidade" desagradavel - afinal de contas, tava quase de graça, e um dos dogmas da minha existência é:
"sendo de graça, ou quase. encara-se até injeção na testa!"

Além do preço estar bom - aqui empregado no sentido de: "adequado à minha perrapadês"(Y), a certeza era plena de que o show seria mais do que incrível (e, para mim, realmente foi).

Chegado o dia do show - ansiedade matando, por mim teria saído de casa 1500 horas antes do horário previsto, pra acampar no portão e ser o primeiro a entrar tendo, certamente, a sorte de ficar na beira do palco (vale salientar que isso era a minha vontade, e como diz uma amiga minha, "aprendí que vontade é uma coisa que dá e passa"). Tudo nos conformes - ou seja, não como eu tinha previsto, mas só IR já era uma vitória - até mesmo o engarrafamento do inferno não em perturbou.

Muita gente no portão, muita gente lá dentro. Estava eu radiante, afinal, a batalha da "ida" já estava vencida. Passada a etapa da catraca, eis que deparo-me com A COISA DESAGRADÁVEL que tinha mencionado. "PÓTA QUÉ PARÉU", uma verdadeira segregação monetária entre os magnatas que pagaram TRE-ZEN-TI-NHOS por uma mesa - de PLÁSTICO, nem de ouro era... (¬¬) - e os pobres estudantes (vale salientar que POBRE-ESTUDANTE e ESTUDANTE-POBRE, em 99,9% dos casos, apresenta-se como redundância, uma vez que estamos abaixo do cocô do cavalo do dublê do quadjuvante que não passou no teste pra acompanhar, de costas, em uma única cena a comitiva do bandido, quando se trata de situação financeira, é claro) que segundo minha acompanhante ;9 eram compostos, na maioria, do pessoal de letras - gente inteligente, está a OUTRO degráu na vida... É como se Deus dissesse assim: "Olhe, meu filho, você será pobre, mas pelo menos, será inteligente." - é claro que esse tipo de coisa comove qualquer um... - Então, retomando o foco: o problema não eram os estudantes, o problema, na certa, era COM os estudantes.

Em frente ao palco, estendia-se uma grade quilométrica que reservava toda uma faixa retilínea às dimensões do palco para as mesas. Para a pobrada restaram os espaços além da grade, e os pobres que quisessem ficar mais próximos do palco, para ver de perto o artista - sem ser pelo telão, tinham de se espremer em uma rampa que estava voltada desfavoravelmente pro lado de fora do palco. Ou seja, os pobres previnidos que chegaram primeiro encostaram na grade e estava tudo em paz. Já os que chegaram depois se acomodavam atrás dos sortudos da frente, e os que ficavam mais atrás só viam as cabeças dos demais, já que a rampa arruinava tudo e deixava os que encostaram na grade "maiores" dos que estavam por trás.... É de lascar...

Pior do que toda essa situação só poderia ser a pobrada começar a se revoltar... (e, acredite, ela ensaiou isso.) Não que eu seja contrário às revoluções, mas o que poderia ser feito naquela hora? Digamos que faltariam uns 30 minutos pro show começar... Minha gente, relaxem aí, lembrem o preço que vocês pagaram... Lembrem bem, vocês são, não todos, pessoas inteligentes!

Mas não..., haja o povo discutir insistentemente sobre o assunto. Só sei que isso começou a me dar raiva. Que coisa mais chata. NADA IRIA MUDAR AQUILO. Eu não estava me incomodando mais com a estrutura, reconheci a merda que fizeram e pronto. Fiquei apenas aguardando meu showzinho, numa nice... Minha gente, aprendam uma coisa. Isso deve-se manter fixo na cabeça:


Pobre NUNCA terá vez na vida. Porque quando isso acontecer, não seremos nós, os pobres de hoje, que teremos essa oportunidade... rs


Não há como e nem por que se revoltar, Gandhi e Madre Tereza devem estar se revirando no caixão com essa atitude de vocês... Lembrem-se que vocês pagaram "ínfimos" trinta reais numa meia e que em outros lugares essa simplória "meia" custa 80.

Outra coisa MUITO importante: Entendam que se um cristão pagou 300 reais numa mesa, é claro, é ÓBVIO, que ele, no mínimo terá vantagens sobre você, seu pobre insignificante que não passa de um reles integrante do povão, que no máximo pagou 60 reais...

Começado o show, todas as pessoas interessantes e interessadas nas músicas e no artista calaram a boca. E os que ainda sairam falando da merda da estrutura e que o show foi ruim é porque não tiveram cabeça o suficiente pra compreender o espetáculo.

Uma pena ter durado tão pouco. Mas como diz alguma frase pronta por aí: "se as coisas boas fossem eternas, não saberiamos dar o valor que elas merecem."

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****** Não custa lembrar:
"O texto acima é uma obra de ficção e qualquer coincidência com pessoas ou terceiros é meramente acidental ou usada como forma de paródia."

Um comentário:

Andrea disse...

Trinta reais por essa estrutura!?
Eu procuraria o PROCON.
E, pra mim (embora seja claro que é minha opinião e não do Roberto Carlos, gosto de reforçar), frases do tipo que algo não foi entendido porque não houve cabeça pra devida compreensão, tendem a serem preconceituosas. As pessoas adoram dizer isso, por exemplo, do Tom Zé e da Tropicália.
No mais existe quem defenda a obra de arte em si, tendo como base Kant, e afirmam que a verdeira obra de arte não precisa de nada externo a ela para sua compreensão e que ela por si só seria entendida por todos idependente de qualquer padrão social, de tempo e de valores. Sendo assim não haveria necessidade de qualquer pessoa ir à defesa de qualquer obra de arte.
Não que eu concorde, é só para você não se tornar um universitário arrongante, principalmente com aqueles que não têm o erudição. Mesmo no caso daqueles que simplesmente não quiseram ter, não foi falta de oportunidade.
E termino com uma frase de Schopenhauer: "Devemos encarar com tolerância toda loucura, fracasso e vício dos outros, sabendo que encaramos nossas próprias loucuras, fracassos e vícios".
Não costumo citar frases mas ando interessada em Schopenhauer e achei que a frase cabia. Também queria dizer que sei pouco de Kant e da sua teoria da "coisa em si". Mas está nos meus planos de um dia estudar.
Continue escrevendo. Tenho vontade de um dia escrever.
Beijos
Andrea