quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MANIA DE ESQUECER

Você diz que é desleixo, lerdeza e falta de atenção. E que a cabeça eu vou terminar perdendo. Mas que fale... Se o que me importa é ver você de novo, não custa esquecer alguma coisa contigo. Por onde ando, vou semeando meus pertences. Aquele casaco no banco de trás, o livro sobre a cômoda, uma bermuda na gaveta, os pés das meias no varal...
É coisa minha que, por hora, é sua. Sou eu de presente - em doses homeopáticas e com vencimento. E se sou eu contigo, por favor, não se apresse na devolução. Porque, em especial, eu não me deixo esquecer de algo: você precisa lembrar de mim. De resto, tudo é pretexto para que haja um reencontro casual.

- e mais outro, e mais outro -
Corcel na Tempestade, Adalto Magalha & Almir Guineto

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

INFÉRTIL

Estou como criança que, frustrada, encara um desenho seu. Enquanto esteve na mente, era perfeito. Mas agora é feio, muito feio. De que me vale tê-lo imaginado lindo se agora é apenas um borrão sem significado?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

MEMÓRIAS DAQUELE SONHO DE ANTES DE DORMIR

Amontoamos nossas malas no balcão e escolhemos o 701. Quarto bom, com vista para avenida e seus transeuntes formiguinhas. Pedimos que levassem a bagagem para cima e, sem rumo, nos soltamos. Tarde afora - adentro pela cidade.

As ruas estreitas e amontoadas ficaram ainda mais abobalhadas graças à cerveja de cada bom e mau boteco em nosso caminho. Riamos tanto que não sobrava espaço para conversa. Era um divertimento besta, sem razão de ser... Gratuito.

Altos da bebedeira, perdemo-nos incontáveis vezes até encontrar o hotel. Madrugada baixa, não tardava o amanhecer. Deus, como era impossível parar de rir.

E o 701 lá estava. Com sua cama de casal. Estávamos tão afoitos que acabamos esquecendo de pedir camas separadas. Agora era tarde.
Fingimos não haver problema algum nisso - até porque não existia mesmo. "A gente toma nossos banhos, depois é cada um pro seu lado". O novo dia nos esperava - e nos queria recarregados.
Você foi primeiro, bem jogo-rápido. "Banho sapecado, hein?"- brinquei eu.

Uma chuveirada fumegante deixou-me tonto de sono. A luz e o vapor do banheiro me guiaram à cama. Você, já do seu lado, me dava prováveis costas, inteiramente coberta pelos lençóis.
Tomei meu posto e descumpri nosso tratado em duas cláusulas, perdão.
Primeiro, não me virei para o lado oposto. Não fui capaz de ignorar-te.
Segundo, não pude conter minha mão. Quando dei por mim, estava eu a tocar e a acariciar você.
Seu sono era mesmo pesado. Imóvel estava, imóvel permaneceu.
Enchi-me de vergonha, e o sono veio me consolar.

Acordei e você já não estava ao meu lado. Lavei meu rosto e encontrei um bilhete seu no espelho. Não quis me acordar e foi tomar café antes que o horário acabasse. Mas que eu não me preocupasse, você e seu bom humor contrabandeariam comida para o quarto. Sorri.
Eu, que como obediente, sou péssimo, desci e te encontrei na recepção. Pelo menos comemos juntos. E sem crimes.

Dessa vez fomos mais longe, até uma cidade vizinha. Outro dia incrível. Nada se falou sobre meus atrevimentos da noite passada.
Exaustos, jantamos porcarias e bebemos mais ainda. Dessa vez sem risos, meus no caso. Sentia-me mal por ter quase destruído aquela amizade linda.

701, mais uma vez. Com uma ligeira diferença. Agora existiam duas camas de solteiro. E se não fui eu quem pedi...
Os pensamentos viraram auto-acusações. Tranquei-me no banheiro e saí de lá para dentro das cobertas da cama desocupada. Mutilado pela vergonha.

Eu já não raciocinava direito. Mas lembro-me do susto de sentir você chegando. Seus lábios encostando no meu ouvido e o sussurro:
- Você não acha que uma cama de casal era muito grande só para nós dois?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

HEMISFÉRIOS

Eu trabalho em duas áreas de influência. Para manter uma eu preciso viver também a outra. Porque exclusividade não entra no pacote - pelo menos não no meu. Compreendo que vocês não se misturam. E até sei que é melhor assim. Sou grato a vocês. Quero agradecer por - ambas - me aceitarem, ainda que eu seja a ponte indesejada entre essas duas realidades. Enfim...

Um dos lados me faz mal - não que o outro também não faça - mas esse lado, em especial, tornou-se mais áspero. E eu não mais suporto. Isso eu pude perceber há tempos. Outra percepção minha foi que ao tentar abandonar a metade podre, eu corri risco de perder a maçã inteira. Vai saber? Descoberta: ainda que eu sofra a Norte, essa cruz faz-se necessária para que eu exista a Sul. Sim, eu sei que o problema é comigo - e não com vocês. Mas isso em nada muda a situação.

É como se eu precisasse buscar a chave para a minha casa em uma porta vizinha.

Minha motivação é o egoísmo - e não pensem que eu não me odeio por isso. Eu poderia viver sozinho, mas não consigo. Eu poderia viver para mim. Girar exclusivamente em minha função. Mas sou vazio demais para ter o que partilhar comigo mesmo. E a partilha é necessária. Preciso de alguém com o mínimo - e que ainda esteja disposto a dividir comigo. Encontrei-as. É por isso que eu necessito vocês. É pelo seu sangue. É pelo que vocês são. E é pelo que eu sou, também: um egoísta viciado - dependente de vocês.

Daria tudo para não estar entre esse fogo cruzado. No meio dessas chamas que tanto eu alimento - e que tanto me consomem. E o pior de tudo é que talvez apenas eu veja essas labaredas. Afinal, nunca atestei minha sanidade. Eu não posso me trocar - porque essa história para todo o sempre me perseguirá, mas eu troco vocês. Ambas. Troco-as antes que o que sobrou de mim - o meu resto - sucumba pelo calor de vocês. É, eu caio fora. Saio para respirar.

É por isso que eu estou de malas prontas.

INVOCAÇÃO

John W. Waterhouse
Deus dos sem deuses
Deus do céu sem Deus
Deus dos ateus,
rogo a ti cem vezes.
Responde quem és!

Serás Deus ou Deusa?
Que sexo terás?
Mostra teu dedo, tua língua, tua face,
Deus dos sem deuses.
Chico César

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

sábado, 30 de outubro de 2010

QUANDO O AMOR VACILA

"Eu sei que atrás desse universo de aparências, das diferenças todas, a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que não suporto ouvir, e dela não me conformo... Eu acredito em tudo, mas eu quero você agora.
Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes... Pelas tuas loucuras todas, minha vida. Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas. Amo teu jogo triste. As tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria, mesmo fora de si. Eu te amo pela tua essência. Até pelo que você poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo quando - sozinha - bordo mais uma toalha de fim de semana. Eu te amo pelas crianças e futuras rugas. Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas, e pelos teus sonhos inúteis. Amo teu sistema de vida e morte. Eu te amo pelo que se repete, e que nunca é igual. Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras. Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma. E mais que as palavras - ainda que seja através delas que eu me defenda - quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis, quando o próprio amor vacila."


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"E ISSO LÁ É BOM?"

Fiquei triste quando descobri que passei a escrever tudo aquilo que eu ensaiava para contar a alguém. Mas, como os alguéns nunca estão onde a gente quer, eu fico aqui com o caderno na mão. Mas podia ser pior se talvez eu não tivesse o que contar. E não com quem contar.

THIEF-FRIEND

Sonhei que tinha virado um ladrão, e que ao entrar em uma casa pela janela, fui flagrado pela moradora que começou a gritar pelo nome de uma conhecida minha que, inclusive, há muito eu não via.

- Mas vejam só, não sabia que você estava morando aqui! Há quanto tempo...

Conversamos por todo o dia. Ela me convidou para o almoço, e depois para o jantar. É bom rever os amigos.

AUTENTICIDADE

A pessoa já sabia o que fazer. No entanto, ainda quis me perguntar como proceder.

Aconteceu dela ter sido vitimada, ainda que sem intenção, pela incompetência alheia. Por mais enlouquecida de ódio que estivesse, decidiu não fazer nada. Aliás, resolveu forjar certa "nobreza" de espírito e deixar tudo como já estava.

Eu achei bonito, apoiei a decisão e disse que era mesmo o certo a se fazer.

Hoje, passado muito tempo do ocorrido, minha memória me {re}apresentou o caso. E é com uma outra visão que eu questiono:

Até que ponto vale proceder de acordo com o que não se é? Sim, porque a "fineza" não era genuína. Falsidade ideológica! O que sei é que teria sido melhor se você não tivesse me dito nada. Ou que me deixasse saber apenas do superficial. Que não me tivesse envolvido no que havia por trás. Porque hoje eu bem conheço a farsa que és, mas daí a ter me tornado seu cúmplice já é demais!

MAS EU VOU ME AMAR

Eu, que apenas sei fazer perguntas - e nada sei responder - surpreendi-me com uma constatação de vida:
Dia desses estabeleci que gostava da minha vida assim: solta, sem paragens, rotas ou destinos. Que eu gostava mesmo era do acaso regindo tudo. Mas acontece que recebi aquele seu telefonema -tão fora de hora, obra prima do acaso (que eu tanto amo). Enquanto você me contava seus planos para aquele decorrer de semana, descobri que não era a minha vida livre que eu apreciava, era a dos outros. No caso, a sua.
Nunca pensei que logo você, que sempre fora daqueles que pensa em excesso e tarda a concretizar, fosse capaz de planejar uma viagem longa como essa para passar tão pouco tempo. Você, planejando algo nas vésperas? Jamais imaginei, confesso.
Você me surpreendeu com essa. Estou aguardando seu telefonema de confirmação.

Olha, mesmo que nada dê certo - e que você nem chegue a vir - quero agradecer pela surpresa e dizer que te amo. Primeiramente pelo de sempre; "segundamente" porque pude ver em você aquela característica que eu aprecio na minha vida. A Liberdade. Vida essa que, aliás, eu nem vivo. Apenas quero tanto viver livre que quando um imprevisto muda para melhor as rotas da minha rotina, confundo com liberdade. É só isso.

Mas, se vieres para me salvar dessa mesmice, eu até me imagino tomando um ônibus só para receber-te. Numa correria só, sem nada pronto. Nem saberei aonde levar-te, e faria planos vendo as árvores e os traços no asfalto passando.

E eu pensarei cá comigo:

"Na semana passada eu jamais me imaginaria dentro desse ônibus."

Só então vou me enxergar e te amar ainda mais.
Mal cabendo em mim, aceitarei seu presente. Obrigado, você me deu a vida sem âncora que eu sempre desejei. Mesmo que sejam só momentos, e não uma vida inteira. Mas eu vou ser do jeito que sempre quis.

TEMPO DE CHUVA

Por que esse tempo chuvoso condiz tanto comigo?
Digo, por que chove tanto por fora e por dentro?

Há algum tempo compreendi que algumas coisas existem apenas para dificultar nossas vidas. Egoísmo à parte, mas está acontecendo isso com essa chuva.

Eu conseguia conciliar minha tristeza com algumas distrações. Mesmo estando boa parte do tempo sozinho, mas é como se as ilusões me acolhessem - e eu pensava em outras coisas. De modo que de tanto fingir que não havia nada de errado, as coisas ficavam mais calmas.

Acontece que com esse aguaceiro eu não consigo desviar meus pensamentos para outro rumo. Não tenho paz, é um castigo. A chuva está sempre aqui: maltratando os telhados e me fazendo lembrar que estou a ponto de perder o ar e a lucidez nesse meu dilúvio interno.
Eu estou vivendo aquele momento em que as nuvens espessas cobrem o Sol. E, de uma hora pra outra, um dia claro torna-se escuro. Sem generalizações, vai ver apagou-se apenas a minha iluminação.
Espero que possa entender, embora eu saiba que o ignorante sou eu - que acha que um estúpido holofote traz vida.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

"METADE DA MINHA ALMA É FEITA DE MARESIA"

Antes de ir para o mar, eu me banhei no que chamamos de "água doce".
Chegando na praia, o mar recebeu-me em desespero: como que querendo lavar-me daquela doçura que nem era minha mesmo...

MATRACA

Perguntaram-me se eu era daqueles que falam sozinhos.
Respondi que não.
Mas - cá entre nós - quando estou calado, é quando mais tagarelo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

COMANDOS

Ando precisando de um sentido.
Porque eu não mais agüento ser uma dessas perguntas que se auto-respondem.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

"ÀS VEZES SE MORRE"

Já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

Morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

Morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma



Leminski

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

UM DIA PARA (TENTAR) POR FIM À BAGUNÇA

Olha, eu vou lhe ser bem honesto:
Minha vida não requer nada além dos cuidados triviais. Salvo em dias atípicos, obviamente. Tá, eu sou humano, mas não sou o tipo de pessoa que inspira cuidados. A título de cálculos, proporcionalmente eu sou até mais alegre do que triste. Não é difícil que eu me sinta bem. Por exemplo, até mesmo naqueles dias em que se acorda -com ou sem motivo- de cabeça baixa, basta ouvir boa música que minha alma lava-se. Viu? É fácil me fazer feliz.

Então por que será que eu insisto em pensar que existe algo errado - mesmo sabendo que não há? Por que será que eu carrego comigo essa cara muda de quem é infeliz? A isso eu chamo desordem. Sucessão de desencontros. Descompassos: minha vida caminha num ritmo diferente da minha mente. E tudo isso, ainda que não bastasse, segue sem dar as mãos ao meu corpo. É por isso que hoje eu paro. Para acertar os ponteiros e ajustar frequências. "Estou fechando para balanço".

Estou precisando de uma faxina. Dessas boas. Dessas em que se esfrega as paredes e o teto.

---

Mas aí eu me pergunto: e se eu for mesmo (e somente) essa zona? Quantos dias será que levo para acabar comigo mesmo?

E essa observação quase chegou a ser um PS. Ela seria se não tivesse desconstruído tudo o que há acima. Eu já não sei.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

PARE COM ISSO! PARE COM ISSO!

PARE COM ISSO A-G-O-R-A!

... é que quase sempre eu preciso usar dessa técnica - auto-repreensão - para me impedir de criar um futuro só meu, e que no entanto é nosso. Porque é inevitável: sempre que eu penso, não acontece. Será que é porque eu só projeto a felicidade?

Mas agora já é tarde demais. E eu acabei com tudo.

domingo, 26 de setembro de 2010

AS FALSAS PARALELAS

Uma vez me disseram que não existem retas paralelas. Sim, elas existem, mas não permanecerão assim: sem se tocar para todo o sempre. É que elas, por serem retas por excelência, são infinitas. E o infinito sempre se junta no horizonte. Inevitavelmente.
Portanto, para quem fica atrás - e vê as falsas paralelas se estendendo - também verá que um dia essas ficarão unidas. Juntas lá na frente. Lá: onde é o limite da visão. Nem que seja por ilusão de óptica.

Após esse enunciado, desculpe-me, mas não pude deixar de pensar em nós. E um fio de esperança se acendeu. Porque os números, diferentemente das letras, nunca mentem. É, as letras muitas vezes dizem coisas completamente avessas ao que realmente está por trás. Aquilo que, por vergonha ou capricho, prefere se esconder... Mas isso é outro assunto. E eu não quero desviar-me da minha cronologia, da minha linha, da minha reta.

Onde eu parei? Ah!, nos números e em nós.

Minha esperança se acendeu porque se todo esse "prólogo" é pura matemática, então é lei: está provado e é verdade. E eu preciso agarrar-me a essa teoria. Simplesmente porque eu preciso acreditar que mesmo nossas trajetórias sendo tão opostas, e nós estarmos tão distantes, existe algo que sustenta e me consola: a projeção de que um dia eu poderei pegá-la em minhas mãos - e não soltar jamais.

E se eu abandonar-me por alguns instantes - e passar a examinar nossos caminhos - eu quase posso ver-nos lado-a-lado... É, eu preciso acreditar nisso. Sim, eu quero e preciso. Até porque é tudo matemática. E número não mente.

domingo, 19 de setembro de 2010

EU SOU FUNCIONÁRIO, ELA É BAILARINA

Não sei parabenizar, mas sei contabilizar. E ao contrário do que você espalha, Querida Bailarina, sim, os números são muito importantes. A numeração 18, por exemplo: observe a importância que tem.

Este texto é uma humilde oferta. Não chega a ser bem um presente, visto que é um relatório. Uma contabilidade... Um apanhado! Sim, um apanhado das coisas que me fazem lembrar você.

Luas faceiras;
A falta de tradução da palavra estante;
Cabelos longos - que um dia já foram curtos;
Brincar de helicóptero;
Brincar de Mário Bros;
As varandas de uma rede;
Caio Fernando Abreu;
Pizza de 4 fatias;
M. Aydar;
100 Anos de Solidão;
Redes armadas no terraço;
O terraço;
Jornalismo;
Edredom;
Caim - Solimão - Sérgio - Márcia - Andréa;
Brisas Quentes, Ventos Frios;
Invenção de histórias;
"Não, porque nem sempre...";
Aquele projeto de uma história em parceria;
Objetos multifuncionais;
Cantoria;
"Naldinho & Little John";
Um ótimo abraço;
"Se estiver me ouvindo, fala CAJU!";
Temporadas de Caju;
Odaxelagnia;
Piadas;
Rodrigo Amarante;
Keane;
Cîroc;
Hidratação fulltime;
So white as snow;
Ciência Política;
"Acertou quantas questões no concurso?";
Polícia Federal;
Chicabana, rs;
By My Side;
Vitor & Alana & Marcelo;
Escolher um dedo quando horas e minutos são iguais;
She & Him;
Quando alguém se exalta vendo futebol;
Vanessão Maxo;
Santa Chuva;
Kafka;
Xadrez;
Jar of Hearts;
Sousa;
John Lennon;
A história da Velhinha;
Acessoria de Dam&Van;
Little Joy;
Carlinha A.A. / Mona B.A.;
Signos & Quadraturas;
Vênus sabe Deus onde...;
Tarot;
Quando alguém entra em luto por uma bota;
Maria Rita;
Vídeos de celular;
Morangos Mofados;
1408;
"Burn me Alive!";
Your Ex-Love Is Dead;
Regra de 3;
Sono eterno;
Planos de cirurgia plástica;
A Sombra do Vento;
Chico Buarque;
"Acorda, Acorda, Acorda, Acorda...";
Amaranta, Aimê, Lavignia;
"Passa, nuvem negra!";
Laranja Mecânica;
Bolsas;
Desdrobos;
Alguém que já foi do rock;
Prison Break;
Bob Marley;
Uma legião de fãs;
The Carpenters;
Aeróbica no terraço;
"Time-goes-by / so-slowly...";
Diplomatas;
Jogos de montanha-russa;
Óculos bifocal rosa;
Soluções Drásticas;
Rainhas inacabáveis;
Os Bingos;
Triângulo das Águas;
Jussara, Ulla, Gabi, 3Marias (Rita/Ruth/ ?);
Destruição progressiva de aparelho de telefonia móvel;
Pessoas que choram;
Empréstimos que não voltam jamais;
Hoje É Dia de Criticar;
"Pra bom entendedor, meia palavra bas.";
Piracicaba;
Malta (a da Europa.)"
"Cabelo Novo, Vida Nova."
Yoko Ono;
Cantadas Jurídicas;
Alzheimer;
Transtorno Bordeline;
Multiple lovers;
Lasanha;
Escritores de gaveta;

É uma pena que exista mais a ser citado e que, no entanto, não pôde ser. É que minha vagareza atrapalha tudo. Se eu fosse citar, é capaz de o apanhado só chegar na comemoração do ano que vem. Enfim, de todo o coração: feliz aniversário.

sábado, 18 de setembro de 2010

MUSIC IS MY GIRLFRIEND

Não é preciso que eu diga, porque -sozinhas- as pessoas vêem que minha vida é muito sem graça. Destemperada. É por isso que eu preciso tanto da música. Para ser meu fluido, meu sangue. Para que seja, de acordo com seu ritmo, minha pulsação. Eu respiro só isso. Vejo só isso. Mas ouço além - a ponto de de respirar e ver além enquanto ouço. Sou feliz assim, mas quero e devo agitar as coisas: mudar as tonalidades: radicalizar. E que esta venha para elevar ou assentar poeira. Talvez até rasgar todo o colorido e clarear minhas paredes. O importante é que venha. Com ou sem demora.

Eu costumo dizer uma escassa sabedoria: pontuo com trilha sonora a falta de sal dessa minha existência. E que assim se faça por toda a eternidade.

AMÉM.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Meu pai aponta o dedo e diz:
- veja só como locomotivas suportam carregar grandes pesos.

E nesse momento eu me senti a locomotiva mais imprestável do mundo - incapaz de levar qualquer coisa adiante.

sábado, 11 de setembro de 2010

AGRESSÃO

Por mais que eu quisesse, bem sei que não há jeito. Portanto, já que eu não posso pegar-te pelo pescoço e torcê-lo em trinta rotações (para cada lado), eu me conformo em falar de você. Uma pena, mas não é fofoca. Não proclamo sua pessoa a ninguém - para que não pensem que tenho fixação em ti. Mas acostumei-me a escrever teu nome. E escrevo-o sempre com as letras todas minúsculas. É na tentativa de diminuir-te, sim. Para que você murche cada vez mais. E desapareça. Minimize e desapareça!

- principalmente dentro de mim -

Eu sei que é coisa minha, e que isso em nada fere a sua pessoa. É por isso que eu continuo, e não me deixo esquecer. Não atinge você, mas agride a mim. Eu - que sou você só porque você insiste em não sair de mim. Eu escrevo, escrevo e escrevo: diminuindo minha letra cada vez mais. Tudo isso com a intenção de, já que não posso acabar contigo, deixar-te menor. Mesmo que você não suma, quero que fiques menor: para caber melhor em mim. Alojar-te com mais conforto. Porque eu não suportarei que fiques nesse ritmo de crescimento. Tenho medo que não caibas mais em mim.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

COMO FUNCIONA A CABEÇA DE UM INVEJOSO

ENQUANTO ISSO, NA SALA DE AULA...

"... porque cada matéria existente possui a sua respectiva anti-matéria. Quando há o encontro dessas duas unidades - tão iguais e ao mesmo tempo tão opostas - ocorre a destruição de ambas. As duas se aniquilam para que surja apenas energ..."

Seria ótimo se essa lei física valesse, também, com pessoas. Além de sempre existir o seu - exclusivo - lado oposto, melhor seria a união entre os pólos. Quando finalmente alguém encontrasse "a pessoa certa" - e se essa fosse realmente a certa - o par desapareceria. Incrível! Não se incomoda ninguém! Até porque nada mais irritante do que um casal...

SUPONDO O ERRADO

Suponhamos que eu seja uma criatura forte, o que não é verdade. Suponhamos que ao tomar uma decisão eu a mantenha, o que não é verdade. Suponhamos que eu escreva um dia alguma coisa que desnude um pouco a alma humana, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha sempre o rosto sério que vislumbro de repente no espelho ao lavar as mãos, o que não é verdade. Suponhamos que as pessoas que eu amo sejam felizes, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha menos defeitos graves do que tenho, o que não é verdade. Suponhamos que baste uma flor bonita para me deixar iluminada, o que não é verdade. Suponhamos que eu finalmente esteja sorrindo logo hoje que não é dia de eu sorrir, o que não é verdade. Suponhamos que entre meus defeitos haja muitas qualidades, o que não é verdade. Suponhamos que eu nunca minta, o que não é verdade. Suponhamos que um dia eu possa ser outra pessoa e mude de modo de ser, o que não é verdade.

C. Lispector

sábado, 4 de setembro de 2010

BRAAAVO!


Por um acaso surgiu a oportunidade de assistir a peça. Se no saguão não tivesse o único folder - que (graças ao céu) provavelmente foi abandonado por alguém - e se a noite não estivesse ociosa como esteve, talvez eu permanecesse sem ser conhecer uma das melhores noites que a vida me reservou.

Cheguei no teatro sem saber nada. Nem a sinopse foi lida. Desse jeito, não seria difícil que eu me surpreendesse com qualquer coisa. Mas confesso que tudo foi além. A surpresa ficou de lado. Foi abandonada por uma integração muito forte - como se eu tivesse nascido pra estar ali: na platéia DAQUELA atração. Aquilo tudo era meu demais.

O conjunto inteiro foi agradável, começando pelo auditório - pequeno e esfumaçado: perfeito. Deus encarregou-se por colocar-me na segunda fila, quase dentro do palco. Melhor ainda.

A propósito, uma das muitas coisas aprendidas:

"Deus está nos acasos"

Claro que sim! É óbvio que sim! A parte boa é que eu sempre soube disso, HAHA!
Outra observação: foram tantas sequências e falas maravilhosas que, sinceramente, minha vontade era de anotá-las todas - afim de guardar pra posteridade.

Os atores incríveis. Artistas de fato. Encantei-me prontamente por Madame Clessi (Regina Bastos - irretocável!), Roberto (Tiago Luz - é como ele que eu quero ser quando puder ser alguém como ele), Silvia (Martina Gallarza - magnífica) e Paulo (Marcel Gritten - incrivel!).

A mistura de todas as histórias, tão fora e tão dentro do foco... Fantasmas do passado mais vivos do que qualquer coisa... Tudo obra de uma sacada - com o perdão da má palavra - FODA AO EXTREMO! Meus parabéns ao diretor Edson Bueno. E um caloroso salve a Nelson Rodrigues!

Precisei dar vazão à alegria que senti por ter presenciado o espetáculo. Pode-se dizer que a viagem que fiz tornou-se válida por ter vivido essa experiência. Partilhar: essa é a intenção desse texto - fazer jus às mãos que tenho (assim como aprendi na peça). Infelizmente não conseguirei descrever ou passar tudo... E, pensando bem, não quero exteriorizar tudo - quero guardar boa parte comigo. Dentro aqui, por muito - e ponha muito - tempo.

Murilo Franco

sábado, 28 de agosto de 2010

NOME DE MOÇA

Eu estava tentando ler mais um livro quando fui interrompido por uma sequência de nomes aleatórios. A princípio, ignorar foi minha atitude. Afinal, minha leitura me confiava uma ocupação mais interessante.

Estela
Vitória
Angelina
Sol
Felícia
Raquel

Novamente, estava eu desacordado da história pela mesma voz que - incansavelmente - permanecia ao acaso citando nomes em voz alta. Mais uma vez eu maldisse a irritante proximidade de nossas casas e o inconveniente posicionamento da minha janela - justo de frente para a sala alheia. Em especial, essa noite eu senti que meus vizinhos moravam dentro da minha casa. Até a música que eles ouviam eu ouvia também. Sem falar na chuva de nomes que até agora não acabara. O que seria aquilo, meu Deus? Uma chamada oral num convento?
Anita
Gisele
Soraia
Denise
Flora
Catarina

Não teve jeito. Uma vez que nem ler eu podia mais, senti vontade de escutar minhas músicas. Baixinho, claro. Só para mim. A final de contas, eu não iria "jogar na mesma moeda". Eis que a situação incômoda estava me enlouquecendo. Agradeci por estar tentando ler, e não dormir. Porque se assim o fosse, minha ira seria maior. Eu só queria, por tudo o que houvesse de mais sagrado, parar de ouvir aquilo.

Pedrita
Elis
Ceci
Vanice
Gil
Beatrix

Vencido pelo cansaço e confiante na esperança de que em alguma hora aquele casal iria dormir, comecei a tentar entender o que realmente eles estavam fazendo. Nunca pensei que existissem tantos nomes no mundo. Conheci uns 15 ou mais que jamais ouvira na vida. É, a tortura estava se tornando um aprendizado.

Tainá
Lia
Bianca
Marina
Ana
Carol

Ocorreu-me, finalmente, o óbvio. Apenas uma pessoa tão lerda como eu teria demorado tanto para compreender a situação. Lembrei-me de que minha vizinha estava do alto de seus alguns meses de gravidez. Logo, aquela enxurrada de nomes nada mais era do que sugestão. Senti uma ponta de remorso por ter desejado que ela se calasse. Portanto, numa tentativa de compensar minha incompreensão, pousei o livro de lado e me envolvi com a escolha de um nome apropriado à criança. Eu estava me redimindo.

Lívia
Elba
Aline
Juliana
Mangna
Penélope

Jamais saberá o casal que uma pessoa tão insignificante em suas vidas (como eu) participou de um momento tão importante quanto aquele. Passei a ouvir atentamente cada opção. Descartei todos os nomes compostos por achá-los populares e horrorosos demais. Visualizei a criança na escola sendo chamada por colegas impertinentes pelos apelidos que seu nome era capar de sugerir. Resultado: risquei da lista várias outras opções.

Isabel
Ruth
Diana
Eva
Helena
Salma

Depois que eu abracei a causa, logo logo a futura mãe esgotou suas sugestões. Ainda pude ouvi-la perguntar ao seu companheiro se este tinha alguma preferência pela origem do nome da futura filha. O pai respondeu que simpatizava com a raiz latina - e eu não pude deixar de concordar com o Sr. Meu Vizinho. Pouco tempo depois, alguns nomes latinos apareceram. Meu trabalho estava concluído. Senti que um daqueles, em especial, fizera toda a diferença. Agarrei-me a ele com todas as minhas forças.

Alice

Naquela noite fui dormir pensando na minha capacidade de mergulhar de uma ficção em outra - sendo ambas completamente alheias a mim.

domingo, 22 de agosto de 2010

SACRIFÍCIOS

DOIS

Eu me distraio com qualquer besteira. E sempre desencadeio todo um conjunto de pensamentos que acabam repuxando histórias antigas. Recordações que eu mesmo não lembrava. Nada que valha a pena, mas ainda assim, é bem mais forte do que eu. A ponto de eu não poder evitar. Preciso me controlar, mesmo sabendo da minha incapacidade.

Agora, por exemplo, devo estar há horas encarando esse espelho. Pensando em mistérios, rituais e coisas sem sentido. Também estou desviando meus olhos dos olhos desse reflexo - que devia ser eu, mas não é. Essa imagem encarnou tudo aquilo que desconheço.

Estou atrasado. É incrível como eu sempre me atraso. Não estou com a menor vontade de me arrumar. Hoje é um daqueles dias em que não se deve sair de casa. Jamais deveria ter marcado esse encontro para hoje. Por que acabo sempre fazendo aquilo que não quero? Posso enumerar em lista tudo aquilo que não desejo. Mas peça-me para exemplificar o que realmente quero e o papel ficará em branco. Uma brancura tão vazia que clareia minha visão para uma coisa: não quero absolutamente nada.

Preciso correr. Estou perdendo tempo. Não posso dar voz à preguiça. Tampouco a esses pensamentos idiotas. Eu vou transformar minha vontade de faltar a esse compromisso no combustível que me fará ir de encontro a ele. Já estou quase pronto.

Ates de sair de casa, apenas mais uma olhada no espelho. Eu poderia mentir e dizer que foi apenas para checar se a roupa estava em ordem. Mas chegou a hora de ser honesto. Eu estou em frente ao espelho para me despedir. Dizer adeus a esse outro - que mesmo não sendo eu, talvez possa estar melhor do que o "eu" que vai chegar em casa em algumas horas. Porque estou partindo para um desconhecido. Pode ser que tudo corra bem, mas pode não ser, também. Vai ver, se tudo for uma merda, eu me arrependa de ter pisado fora de casa - hoje e sempre. Vai ver eu me arrependa de ter traçado o caminho escuro. Vai ver que eu conjurei minha própria sorte.

Atravessada a sala, durante os poucos segundos em que pensei que tudo daria errado porque meus pensamentos pessimistas chamariam mais negatividade, juro que cogitei a hipótese de fazer um ritual. Alguma oferta de peito aberto enquanto houvesse tempo. Um sacrifício, talvez? Felizmente, lembrei que a oferenda sou eu. E que eu é que tenho vivido esse calvário. Levar um dia após o outro, teatralizando uma "cabeça erguida", já deve ser suficiente.

Dito o tchau, eu tranco a porta com um pensamento predominante. É uma espécie de torcida que mais tarde - até que eu chegue no ponto de encontro - terá se tornado um mantra. Quando tudo acabar, e eu já estiver casa, preciso encarar aquele espelho e olhar "de cima" aquele misterioso reflexo insolente. Por favor, que tudo ocorra bem para que eu me sinta melhor do que ele!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

SACRIFÍCIOS

UM

Carrego sempre comigo uns pensamentos estranhos que me fazem crer que cada movimento meu - na verdade, a combinação deles - faz parte de um ritual. Tratam-se de "passo-a-passos" soltos sequer inventados por mim, mas que eu estou a beira de, eventualmente, realizar por equívoco. E eu tenho medo de tropeçar nesse misticismo por engano e, no fim de tudo, ver-me como autor de uma feitiçaria desconhecida por pura falta de atenção.

É por isso que eu premedito cada atitude minha: para escolher sempre a alternativa menos obscura. Àquela que não aparente fazer parte de encantamento algum. Àquela "limpa".

Não me entenda mal, conheça-me como um completo ignorante nesse ramo. Nunca mexi com nada disso, tampouco - que eu saiba - conheci alguém que o fizesse. Salvo o rebanho de personagens fantasiosos vindos dos livros e filmes - os quais, alguns, até muito meus amigos se tornaram... Mas eu sei que todos eles nasceram da ficção de mentes um tanto quanto tão imaginativas quanto a minha. É, isso, certamente, não vem ao caso.

O importante não é saber que existem mais mistérios entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode supor. O crucial é saber que eles, além de muitos, estão em nosso meio. E que existe uma atração muito forte entre nossas existências. A ponto de eles - os mistérios - fazerem com que nós os façamos, e ainda criemos mais. Eu os vejo. Eles estão aqui - conosco. Ou talvez sejamos nós que estamos com eles.

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sábado, 14 de agosto de 2010

COMO ARMAR UM PRESÉPIO

pegar uma paisagem qualquer

cortar todas as árvores e transformá-las em papel de imprensa

enviar para o matadouro mais próximo todos os animais

retirar da terra o petróleo ferro urânio que possa eventualmente conter e fabricar carros tanques aviões mísseis nucleares cujos morticínios hão de ser noticiados com destaque

despejar os detritos industriais nos rios e lagos

exterminar com herbicida ou napalm os últimos traços de vegetação

evacuar a população sobrevivente para as fábricas e cortiços da cidade

depois de reduzir assim a paisagem à medida do
homem
erguer um estábulo com restos de madeira cobrí-lo de chapas enferrujadas e esperar

esperar que algum boi doente algum burro fugido algum carneiro sem dono venha nele esconder-se

esperar que venha ajoelhar-se diante dele algum velho pastor que ainda acredite no milagre

esperar esperar

quem sabe um dia não nasce ali uma criança e a vida recomeça?



José Paulo Paes

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SUTILIDADES

Há coisas essenciais feitas para não serem notadas. Elas existem para - de certa forma - serem ausentes.

É engraçada a forma com que a gente respira e sequer percebe o quão involuntária é essa nossa ingestão constante de ar. E mesmo quando a gente pensa nisso, não deixamos de permanecer nessa respirância sem fim.

Outra ilustração da nossa desatenção são nossos "piscar-de-olhos". Acostumamo-nos a esquecê-los. Tudo isso porque os achamos rápidos demais. Tão acelerados que sequer aparentam roubar nossas visões. Mas isso é mentira! Um fechar de olhos - dentre os muitos significados que possa ter - soa-me como um ato ignorante por excelência. Uma espécie de recusa egoísta quase tão letal quanto a decisão de parar de respirar.

Não, isso não é uma constatação "nossa". Isso foi posto em nossas cabeças desatentas desde que começamos a existir. Nós somos aqueles que foram previamente projetados para serem desatentos sempre.

Conscientizo-me para que eu não me torne mais um ignorante, mais um desatento. Sim, eu sou alguém que deseja a diferenciação. Principalmente pelas percepções e sensações que tenho.

"Eu": a pessoa que necessita notar toda vez que as luzes me são roubadas, nem que seja por um mísero piscar de olhos.

Eu: a pessoa que durante toda essa escrita percebeu, só agora, que respirou e piscou os olhos inúmeras vezes - e, no entanto, sequer notou a tempo.

sábado, 7 de agosto de 2010

"FILHOS, FILHOS: MELHOR NÃO TÊ-LOS

... mas se não os temos, como sabê-lo?"


Meu filho, AQUALQUERNORTEOUSUL, completa hoje um ano de vida. Foram - e são - tantas idéias compartilhadas, e tanto companheirismo, que a suposta "dependência hierárquica" entre pais e filhos, comigo é reversa.
Não é esse espaço que precisa de mim, sou eu quem não vive sem ele. Sou eu o dependente da história.

Tudo isso porque sei o quão incapaz eu sou de passar 24h sem pensar ou construir nada direcionado para cá.

Enfim,

"e o que mais importa
é levar essa chama
até quando eu não mais puder"



Com Carinho,
Murilo Franco

domingo, 1 de agosto de 2010

SERVIÇAL

Estou cansada. Mas não é cansaço de "ser", estou cansada é de servir. Mas, se para continuar viva, eu preciso servir, então confesso estar duplamente cansada - cansada de "ser" e cansada de "servir". Pensando assim, antes eu não "fosse" - para que nada precisasse ser assim e, sobretudo, para que eu não precisasse ser|estar assim.

Não suporto esse uniforme - tampouco a subserviência e falsa obediência que ele me força a exercer. Cansei de distribuir sorrisos mentirosos enquanto ponho mesa, espano vidro e carrego bandeja. Entre meu duplo cansaço, descubro mais um. Muito prazer, sou uma empregada-mulher triplamente cansada. Estou, também, exausta de ser servida. Na travessa, sou o prato principal - que de principal nada tem. Eu, que servindo a uma existência que nem desejei, sou obrigada a servir minhas necessidades e para isso servir aos outros. Dou-me a alheios superiores a mim. Superiores? Sim, porque eu não os vejo servir a ninguém - pelo menos não do jeito que eu sirvo. Vender-me pelo motivo óbvio e estúpido da sobrevivência - que eu continuo seguindo sem saber bem o porquê. Apenas porque sempre segui e sempre seguiram antes de mim. Sirvo, para continuar viva. Sirvo às tantas necessidades dos outros. E sirvo também a tantas (e no entanto tão poucas) necessidades minhas. Odeio as necessidades, que juntas - sendo deles ou minhas ou do mundo - obrigam-me a estar aqui: servindo de ser servente.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MEU DESAFIO

Eu não posso matar você, e isso de certa forma me mata. Eu sinto raiva de você mas bem sei que não posso cobrar que sejas diferente do que és só porque eu quero. Eu estaria matando a sua autenticidade se quisesse que fosses um alguém diferente do que, tão naturalmente, és. Porque você não pode ser outra pessoa. Você está ocupada demais sendo você mesma - de um modo tão irritante que eu acabo por sentir muita raiva. E acabo querendo mais do que nunca que você mude - que fique diferente. Para que eu não precise matá-la. Você me incomoda. Simplesmente porque, assim, você é inaceitável - inaceitável para mim. Porém, a sua persistência em me contrariar, além da raiva que me dá, me faz sentir algo diferente - um sentimento diferente do que eu estou acostumado a ter por ti. Quando você é tudo aquilo que eu não quero que você seja, eu termino por flagrar-me admirando-a. É inevitável. Porque você é o que eu não quero que seja. Você é o meu desafio. A empreitada que não findarei nunca, e que tanto me enlouquece. Pensar em tudo isso enquanto tento medir toda a raiva que sinto por você só me faz ver uma solução: mesmo que eu não consiga, eu preciso matar você - sobretudo porque nessa tentava frustrada estou a matar-me também.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

EU E MINHA MANIA DE AUTO-ENTREVISTAS

Um dos motivos pelos quais eu simplesmente comecei a escrever muita coisa "fictícia" e abandonei aquele modelo de texto-desabafo metralhado de críticas ao universo e recheado de "eu acho"; "eu odeio"; "eu quero"; "eu-eu-eu, mi-mi-mi" tão típicos do início dessa página foi a incômoda e constante mudança de pontos de vista - que me fez hostilizar boa parte de tudo o que eu já houvesse escrito.

Sem esquecer de mencionar a injustiça que uma produção sofre - até mesmo pelo próprio autor - depois que ela é vista do alto de um contexto completamente avesso. Esse tipo de coisa muito me dói. Sim, porque eu sou o tipo da pessoa que, hoje, deixa um recado escrito pra você, e após muito tempo decorrido, quando você me mostra aquele singelo conjunto de verbetes, sinto além da vontade de queimar o que escrevi, um desejo louco de suicidar-me em meio as chamas do inferno com um tiro em cada mão - para que não haja perigo de que eu escreva mais nada que me faça sentir vergonha na posteridade.

Já cheguei a comentar, das mais diversas formas, essa transitoriedade dentro da minha cabeça. Tenho plena consciência de que o momento vivenciado durante os nove meses da geração, e até o próprio parto de um texto, as sensações são literalmente ofuscantes. O brilho de todos aqueles motivos que nos fazem necessitar escrever e parir essa criança de nossas mentes, sim, nos deixa deixa mais cego do que qualquer coisa. Acontece que nesse momento tudo é muito coerente. Tudo são flores e amamos (ou não) nosso filhinho-texto mais do que tudo. Eis que vêm as rotinas umas atrás das outras e nosso pequenino bebê cresce e, conforme os hormônios o vão moldando, ele se torna (inevitavelmente) um adolescente-espinhento-rebelde&rabugento que ninguém ama, tampouco compreende. O que é bem verdade, uma vez que sequer os pais o fazem. E ai? Como proceder?!

R: Abrir mão da paternidade e torná-lo um órfão indigente e andarilho pelas estradas tortuosas da literatura marginal amadora, obviamente!

... totally sad, but all true, baby

Sou um covarde. E passar a criar histórias - junto com tudo o que existe dentro delas - foi minha porta de escape para, de certa forma, "tirar minha responsabilidade da reta"e ao mesmo tempo produzir alguma coisa sempre reinventada e interessante - sem que esta seja, desnecessariamente, tão óbvia e direta quanto às frustradas críticas por mim atiradas aos quatro cantos.

Envolvo-me tanto na criação de um enredo, uma personagem, um ambiente, umas interações-circunstâncias, um começo-desenrolar-fim que quando a história já está pronta, e o que me resta é publicá-la, sinto-me abraçado por uma sensação de recompensa. Uma espécie de companheirismo falso de mim para mim. Sem tanto holofote e confete, mas é o sentimento de "dever cumprido".

Sem falar que tudo me parece bem mais interessante uma vez que é prazeroso perceber minha essência no que crio - sem que jamais compreendam isso ou me vejam. Sinto o Murilo escondido e misturado às palavras de tal forma que nem eu sei fazer distinção alguma do que há - e do que já não há.

Não se trata apenas de um cuspe de sentimentos meus - não quero um diário. Existe todo um trabalho que eu enxergo como sendo maior. Não desprezo meus sentimentos, pelo contrário. Eu os valorizo e aproveito. Apenas não os enxergo como sendo completos e nem quero encharcar palavras apenas com minhas "psicoses & achismos" - isso é egoísmo. Portanto, encaro o plural do que estou sentindo como mais um ingrediente de uma construção. Mesmo que o que eu escreva fuja completamente do que seja eu, uso o momento vivenciado para impulsionar o que for, nem que sejam as vírgulas da história.

É muito prazeroso sentir-se dono de destinos, rumos e derivados. Tudo isso sem responsabilidade alguma. As coisas apenas tomarão as dimensões que você deseja e nada fugirá do seu controle. Quando se transcreve um texto "cru", ou algo da própria vida, tendo em vista a convivência e interferências de terceiros - ou até as auto-interferências - sempre constata-se o quão impotente se é em relação a determinados termos da própria vida. Apenas enxergam-se incertezas e angústias...

E quando todo esse oceano é transcrito, existe a sensação de que se está dando vazão, um certo esvaziamento. O que nem sempre é verdade. Por experiência própria, quanto mais eu escrevia sobre a merda toda que me rodeava, estava me "monstrualizando". Cada crítica implicante, por mais melancólica que pudesse ser, fazia de mim um intolerante. Depois de muito desabafar sobre o que tanto me incomodava, eu descobri que caminhava para aquilo que eu mesmo combatia - ou achava que combatia.

Vê como é decepcionante enxergar tanto sentimento exteriorizado - algo que outrora foi tão forte dentro de você - como sendo aquilo que cortava suas próprias asas, e que só você não notava? Você pode enxergar isso? Porque é disso que eu estou falando.

Quando alguém se auto-transcreve em determinado momento, é como se fosse tirada uma fotografia - um registro demasiadamente seu. Uma fotografia, simultaneamente, de dentro e de fora. Tudo isso fica guardado. De uma forma mais integral do que deveria ser. Ou seja, mais tarde, quando em outros ares encontrares com aquele passado, tudo aquilo voltará e fará com que tenhas vontade de rir. Gargalhar daquele teu reflexo antigo.

Há quem diga que há crescimento quando se enxerga os erros antigos ao passo que os têm apenas como antigos. Hoje está por se cometer erros novos - que só mais a frente serão notados. Declaro certa evolução quando comparo meu ontem ao meu hoje. E isso é bom.

Por outro lado, talvez eu esteja apenas tentando fugir de mim enquanto escrevo histórias e as propago como sendo inventadas. "Historinhas", meras ficções... Enxergando nessa perspectiva, não se vê crescimento algum, não é verdade?
Ou talvez tudo isso seja um engano: mais um engano redondo em que eu venha a me encontrar no foco. Talvez eu esteja apenas me escondendo, mas antes que eu me arrependa de ter começado a escrever histórias, e de ter redigido todas essas supostas justificativas para ter dado início a todo esse processo, prefiro - e sei que é melhor - deixar tudo como está.

Murilo Franco.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O BEM DO MAR


O pescador tem dois amor
um bem na terra, um bem no mar
o bem da terra é aquela que
fica na beira da praia
quando a gente sai
O bem da terra é aquela que chora
mas faz que não chora
quando a gente sai
O bem do mar é o mar
é o mar
que carrega com a gente
pra gente pescar

D. Caymmi

domingo, 25 de julho de 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

LARANJEIRAS

O telhado do muro lá de casa era repleto de cascas de laranja. Todas elas eram diariamente atiradas por mim e pelas mãos de minhas irmãs. Nós seguíamos várias simpatias, sobretudo as de adivinhação - arremessar cascas de laranja no telhado era uma delas.

A verdade é que todas nós éramos loucas por um casamento. E essa brincadeira amenizava nossas incertezas. Trabalhando com o tempo, era ela bem precisa.

Tínhamos três oportunidades de lançamento.

Caso a casca ficasse retida nas madeiras do telhado no primeiro arremesso - felizmente, o casamento além de certo, estava próximo. As que conseguiam esse feito - de tão realizadas com o resultado - saíam da brincadeira a fim de pensar e repensar nos bordados do enxoval, e nos nomes das futuras crias.

Perdida a chance do primeiro lançamento, qualquer uma se agarrava aos santos e torcia para que a casca finalmente se prendesse ao telhado nessa segunda oportunidade. Se assim se fizesse, o casamento era um tanto quanto incerto, porém, a perseverança e a fé talvez mudassem essa sentença. Apertávamos as cascas entre os dedos e que fosse feito o que Deus quisesse!

Desconsoladas, as que perdiam as duas primeiras chances, nem precisavam mais atirar casca em canto algum. Apenas encontravam motivação pra viver defendendo que os lançamentos anteriores não estavam valendo. E que o vento ou alguma invejosa atrapalhara todo o processo. Ninguém queria ficar descasada.

Muitas cascas foram atiradas e muitos anos vieram. Todas saímos de casa e nos espalhamos pelo mundo. Tornamo-nos adultas, mulheres de fato. Esposas, mães, tias e avós. Muitas casaram-se, outras até [re]casaram e há aquelas que perderam as duas primeiras oportunidades nos lançamentos da vida. Algumas também se foram.

Hoje, segurando minha filha pela mão, não pude deixar de passar pela antiga rua e parar de frente àquela antiga casa. Encostar uma mão no portão e sentir o perfume de laranja emanando daquele passado.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

ALÉM

Do alto dos meus cinco, ou seis anos de idade, quando em veraneios na chácara de meus avós, costumava sentar nos batentes do terraço prá diluir tempo observando tudo o que rodeava a propriedade. Sobretudo, observava a cerca.

Se bem me recordo, interligadas por arames, eram estacas brancas margeadas por estradinha de terra por fora e bastante capim do lado de dentro. De uma colina, a casinha azul esticava os olhos para um riacho logo abaixo. E eu na minha guarita - sempre vigilante.

Animais, crianças, parentes e visitas por toda parte.

Quando não entretido com guerras estelares; com banhos de rio entre as pedras; com botes infláveis vermelhos; com varas de pesca retráteis ou com biscoitos, doces-de-leite ou sucos alaranjados, voltava ao meu ofício de vigia. Durante minhas rondas, sempre olhava as vacas. Um dia disseram-me que quando um indivíduo do rebanho morria, os outros punham-se a organizar um cortejo. Torcia para que uma morresse e também não piscava os olhos porque queria muito vê-las rezando, chorando e velando a companheira. Trash, não?

Muitas outras vacas, durante todo o dia, passavam na estrada. Porém, esses animais desconhecidos me assustavam. Não por estarem fora, mas pelo fato de eu nunca saber se eles realmente estavam lá. Eles podiam estar dentro. Eles podiam estar fora. A cerca me confundia bastante.

Enquanto tentava calcular distâncias aproximadas o terror me sucumbia. Tinha sempre certeza de que elas estavam dentro. E se eles estivessem dentro, eu estava desprotegido. Eu tinha ciência de que tais animais eram vacas-furacões. Estando elas do lado de dentro, furiosas, viriam em minha direção. Era uma vez um eu.

Fechando bem a boca - impedindo que o coração pulasse por ela, corria para meu avô - perito nessa questão, e relatava a invasão. "Seguro como o Sol, que faz seu dia involuntariamente", meu avô examinava a situação e constatava o óbvio: os animais da estrada não tinham estraçalhado a cerca tampouco invadiram coisa alguma.

Eu disfarçava a vergonha em meio a falsos suspiros aliviados.

Costumava andar a cavalo. Minha vida, enquanto estava por lá, era quase um filme. O cavalo detestava as vacas - eu comungava com ele desse ódio. Porém, nossa diferença é que ele as perseguia e eu fugia delas. Um enorme cavalo marrom-avermelhado que tinha de dissimulado a mesma quantidade que dispunha de beleza. Enquanto estavamos na vista de outras pessoas o animal era um gentleman. Bastava que saíssemos do campo de visão alheio e o animal se transfigurava. Corria enlouquecidamente - comigo a tiracolo. Aos poucos perdi o medo e me acostumei com a psicose do equino. Durante um desses passeios, avistei um encapuzado. Que assim como eu, corria a cavalo - paralelamente à cerca. Antes que eu tivesse qualquer ação, minha montaria tomou as rédeas da situação e me transportou para longe daquela visagem. Passei a noite em claro. Imerso na escuridão da capa do estranho.

Brincando comigo mais uma vez, a cerca esteve lá durante todo o tempo. Mas não foi capaz de me proteger da imagem do estranho - e do susto que ele me deu. Se ela o fizesse, não seria cerca. Seria muro. Antes fosse muro. Porém, muros mais no cercam do que uma cerca. E naquele momento, eu queria ver além. Coisa que - "nos protegendo do que está fora" - só cerca faz.

*

Toda essa "rememoração" me veio de repente. Em sonho. Sonhei com meu avô e recordei desse passado. Junto com essas lembranças, tracei um paralelo entre minha vida e o amontoado de coisas que me formam. Meras constituições desprovidas de sentido ou finalidade alguma. Desconexões.

Em relação a você, sinto-me e disponho-me da mesma forma que me senti e dispus há anos. Sentado de longe, observando. Não sou capaz de distinguir se estás dentro ou fora de mim - longe ou perto, acessível ou não. Inerente a isso, não tenho coragem de correr do terraço em direção à cerca. Pra saber se ela existe - e se ela nos separa.

Também não tenho quem me tire essa dúvida. Na verdade, não tenho quem me tire dúvida alguma. Um alguém que olhe por mim, analise por mim. Estou só. Não tenho para quem correr. Nem que fosse para deixar a pergunta nas entrelinhas... Não tenho. E quando acho alguém digno disso, essa pessoa toma rumos diferentes e acabamos nos distanciando. Prefiro calar a me arrepender. O ideal seria que você me tirasse essa dúvida. Mas eu sinto que você está sempre tão além. Inalcançável. Infelizmente - ou felizmente - meus sentidos são sempre tão incertos. Indignos de confiança.

Durante a reflexão, não pude deixar de constar outras diversidades:

Os encapuzados-estranhos estão mais presentes na minha vida do que imaginei. Sempre tão indecifráveis. Há dias em que gostaria de vestir - também - esse manto. Me tornar uma interrogação. Mas só apanho retalhos. Meu reflexo no espelho é o de um nú com pontos disfarçados. Ao mesmo tempo em que procuro "sê-los", mantenho a devida distância. Inevitável, quando não sou eu quem fujo, me fazem correr léguas desse abismo.

Enquanto outras pessoas preferem viver, eu prefiro observar. Assim como sempre fiz. Nada disso é novidade, mas eu sinto só hoje essa descoberta. Prefiro ficar nos bastidores e esperar que alguém saia de sua rotina e mude minha vida. Um telefonema, talvez?

São nesses momentos em que me enxergo minúsculo. Invisível.

Por incrível que pareça, às vezes, também me encontro maior do que os limites suportam. Sinto-me como uma espécie de gigante que dormiu pigmeu e acordou imenso - sem noção alguma de tempo/espaço. E é por isso que sinto-me extravasar e derramar em vários aspectos.
Ao mesmo tempo em que, fora das cercas, quero ser parte de tudo o que acontece, sinto que tudo se perde. Sinto que me perco. Os ponteiros "volteiam" e há terras demais por conquistar, coisas demais a se fazer... Esse é um ponto a se trabalhar no futuro, uma vez que a ponte, hoje, é passado-presente. Mas eu ainda sei duas coisas: que toda essa reflexão é demasiadamente egoísta e que eu preciso de mais tempo - prá compensar o que foi perdido, quem sabe?

Um dos motivos pelos quais eu não governo minha vida é porque quando eu o faço, sempre me excedo. Agora, por exemplo, sinto que estou me excedendo. Cruzei as fronteiras de tal forma que sou incapaz de por fim a esses pensamentos. Espero que me perdoem mas, cá esta mais um elefante branco. E em seu último alvo pêlo do rabo, fixo uma canção - mais uma vez.

Eu - hoje - ando atrás de algo impressionante.
Que me mate de susto,
um impulso, um rompante.
Que é pra me desviar desse mar de calmante.
Eu sempre andei atrás de alguém pra andar na frente.
Ah, eu quis me apaixonar assim - perdidamente.
Um engano redondo.
O ciúme intuiu meio tarde demais.
Ah, o meu orgulho já perdeu teu endereço.
Mas o meu coração, não.
Eu não.
Eu não esqueço.

Eu - hoje - ando atrás de algo impressionante.
Que me mate de susto...
Um discurso, um romance...
Que é pra me desviar desse mar de calmante.
Rodei Belém inteira e não te achei.
Você mora com alguém?
A. Calcanhotto - Enguiço