sábado, 8 de agosto de 2009

ENCONTRO MARCADO

Os remédios haviam acabado. Certamente, daqui a alguns minutos os surtos de loucura chegariam. Já os podia sentir. Seus olhos, que sempre foram elogiados pela aparente seriedade, em questão de pouco tempo poderiam até saltar lhe da face. O físico de regularidade firme e travada tornar-se-ia trêmulo. Os cabelos que outrora se encontraram de acordo com o molde básico de pessoas aparentemente comuns, quase que impecavelmente alinhados, caminhariam às ruas em total desalinho. De natureza muito tímida, a simples visão da prateleira vazia era capaz de fazer com que seus pensamentos se transportassem para o futuro e o presenteassem com a premonição de que sua invisibilidade perante as pessoas que o cercavam fosse quebrada e que dali pra frente estaria em constante exposição. Tornar-se-ia “um nervo exposto na sociedade”. O sangue gelou. Os tão esquecidos sintomas na certa não tardariam a se fazer relembrados para o resto de sua vida. Se é que ela teria “um resto” após o furacão que já se anunciava. Na falta de ação, já que não poderia retardar todo o processo, sentou-se à mesa, com seriedade digna de rei e frieza de assassino. Definitivamente, não pertencia a esse mundo. Julgava-se ter uma visão “ampla” da vida e das pessoas que, inevitavelmente, o rodeavam. Prepotente? Se assim o fosse, prepotente não seria, uma vez que quem o é não sabe, nem ao menos cogita, que desse mal sofre. Tal característica “psicanalítica” muitas vezes o ajudou em questões de “diplomacia extrema”, mas sempre que possível – o que ocorria na maioria das vezes – não era capaz de medir esforços para que a reservasse a sete palmos do chão do interior de sua alma, onde lá apenas seu íntimo se “beneficiasse” do que a mente acreditava. Dúvidas não haviam de que sua existência se tratava da diferença, julgava apenas não ser necessário tornar púbico o contraste redundantemente destoante perante “pessoas simples” as quais são cotidianamente treinadas à futilidade. Pessoas essas, que, acreditava serem biologicamente condicionadas ao “deslumbre com as sombras que se projetam à parede da caverna”. A noite seguiu silenciosa entre a eternidade de pensamentos que já haviam sidos utilizados por suas teses sobre a sua própria personalidade, juntamente ao empenho na decodificação da personalidade de “terceiros”. Por onde andariam os surtos? Certamente perderam-se pelo caminho, melhor seria iniciar a “ceia requentada de carnavais passados” sem a companhia de seus, descobertos agora, “melhores amigos”.Cansou-se de apenas decifrar a si mesmo e aos outros. Após a refeição empenhou-se à autocrítica. Afinal, quem pensava ser ele para apontar o dedo de forma que, mais dissimuladamente, seria impossível, ao rosto dos outros? Certos eram “os terceiros”. O errado na história era ele. Como seria possível uma coisa dessas? Logo ele... Que sempre sentiu aversão a toda e qualquer criatura que arrotasse a petulante flor da arrogância. Não era digno de nada. Não era nada. No exato momento, mais um “castelo de areia”, que era como denominava o ápice de suas desilusões, caía por terra e era tragado por qualquer onda que, por entre risos, debochava de seu fracasso. O sono bateu lhe aos olhos e à boca. Melhor seria acompanhar a sonolenta cama, dormir com ela. Infelizmente, essa noite, ao jantar, passou sozinho. Sua melhor companhia, a loucura, de alguma forma, certamente, haveria de ter se cansado de sua ladainha cotidiana. Essa noite o havia abandonado. Ou não.

Um comentário:

Maari disse...

vc escreve mto beeem *o*
meu ídolooo! Que saudade da sua pessoa, amor