domingo, 1 de agosto de 2010

SERVIÇAL

Estou cansada. Mas não é cansaço de "ser", estou cansada é de servir. Mas, se para continuar viva, eu preciso servir, então confesso estar duplamente cansada - cansada de "ser" e cansada de "servir". Pensando assim, antes eu não "fosse" - para que nada precisasse ser assim e, sobretudo, para que eu não precisasse ser|estar assim.

Não suporto esse uniforme - tampouco a subserviência e falsa obediência que ele me força a exercer. Cansei de distribuir sorrisos mentirosos enquanto ponho mesa, espano vidro e carrego bandeja. Entre meu duplo cansaço, descubro mais um. Muito prazer, sou uma empregada-mulher triplamente cansada. Estou, também, exausta de ser servida. Na travessa, sou o prato principal - que de principal nada tem. Eu, que servindo a uma existência que nem desejei, sou obrigada a servir minhas necessidades e para isso servir aos outros. Dou-me a alheios superiores a mim. Superiores? Sim, porque eu não os vejo servir a ninguém - pelo menos não do jeito que eu sirvo. Vender-me pelo motivo óbvio e estúpido da sobrevivência - que eu continuo seguindo sem saber bem o porquê. Apenas porque sempre segui e sempre seguiram antes de mim. Sirvo, para continuar viva. Sirvo às tantas necessidades dos outros. E sirvo também a tantas (e no entanto tão poucas) necessidades minhas. Odeio as necessidades, que juntas - sendo deles ou minhas ou do mundo - obrigam-me a estar aqui: servindo de ser servente.

3 comentários:

Patrícia Rebeca disse...

Gostei demaais!! =DD

Carolina disse...

Gosto de textos assim. Com a capacidade de extrair beleza de coisas que para a maioria das pessoas seria trivial o bastante para nada.

Vanessa Isis disse...

Top Five dos melhores, acredite!