segunda-feira, 15 de novembro de 2010

MEMÓRIAS DAQUELE SONHO DE ANTES DE DORMIR

Amontoamos nossas malas no balcão e escolhemos o 701. Quarto bom, com vista para avenida e seus transeuntes formiguinhas. Pedimos que levassem a bagagem para cima e, sem rumo, nos soltamos. Tarde afora - adentro pela cidade.

As ruas estreitas e amontoadas ficaram ainda mais abobalhadas graças à cerveja de cada bom e mau boteco em nosso caminho. Riamos tanto que não sobrava espaço para conversa. Era um divertimento besta, sem razão de ser... Gratuito.

Altos da bebedeira, perdemo-nos incontáveis vezes até encontrar o hotel. Madrugada baixa, não tardava o amanhecer. Deus, como era impossível parar de rir.

E o 701 lá estava. Com sua cama de casal. Estávamos tão afoitos que acabamos esquecendo de pedir camas separadas. Agora era tarde.
Fingimos não haver problema algum nisso - até porque não existia mesmo. "A gente toma nossos banhos, depois é cada um pro seu lado". O novo dia nos esperava - e nos queria recarregados.
Você foi primeiro, bem jogo-rápido. "Banho sapecado, hein?"- brinquei eu.

Uma chuveirada fumegante deixou-me tonto de sono. A luz e o vapor do banheiro me guiaram à cama. Você, já do seu lado, me dava prováveis costas, inteiramente coberta pelos lençóis.
Tomei meu posto e descumpri nosso tratado em duas cláusulas, perdão.
Primeiro, não me virei para o lado oposto. Não fui capaz de ignorar-te.
Segundo, não pude conter minha mão. Quando dei por mim, estava eu a tocar e a acariciar você.
Seu sono era mesmo pesado. Imóvel estava, imóvel permaneceu.
Enchi-me de vergonha, e o sono veio me consolar.

Acordei e você já não estava ao meu lado. Lavei meu rosto e encontrei um bilhete seu no espelho. Não quis me acordar e foi tomar café antes que o horário acabasse. Mas que eu não me preocupasse, você e seu bom humor contrabandeariam comida para o quarto. Sorri.
Eu, que como obediente, sou péssimo, desci e te encontrei na recepção. Pelo menos comemos juntos. E sem crimes.

Dessa vez fomos mais longe, até uma cidade vizinha. Outro dia incrível. Nada se falou sobre meus atrevimentos da noite passada.
Exaustos, jantamos porcarias e bebemos mais ainda. Dessa vez sem risos, meus no caso. Sentia-me mal por ter quase destruído aquela amizade linda.

701, mais uma vez. Com uma ligeira diferença. Agora existiam duas camas de solteiro. E se não fui eu quem pedi...
Os pensamentos viraram auto-acusações. Tranquei-me no banheiro e saí de lá para dentro das cobertas da cama desocupada. Mutilado pela vergonha.

Eu já não raciocinava direito. Mas lembro-me do susto de sentir você chegando. Seus lábios encostando no meu ouvido e o sussurro:
- Você não acha que uma cama de casal era muito grande só para nós dois?

4 comentários:

Darlan disse...

Uia! haha Um ótimo texto, final surpreendente.

Carola disse...

Caaaaara, que liiiiindo! Eu amei, amei, amei! *-*

Vanessa Isis disse...

Esse agora se tornou o meu favorito!

Jefferson Lima disse...

Incrível!